teste

Casa dos Ingleses

I – A Sorocabana

 

A história da Estrada de Ferro Sorocabana tem início no ano de 1866, quando Luís Mateus Maylasky, um nobre de origem austro-húngara, chega ao Brasil, mais especificamente à cidade de Sorocaba, e torna-se gerente da fábrica de algodão de Roberto Dias Baptista – mais tarde tornaria-se sócio.

A produção algodoeira em Sorocaba tornava-se mais e mais pujante, de maneira que logo passou a ser inviável transportar o produto de mula, como era feito, até o porto de Santos. Assim, em 1870, empresários sorocabanos foram convidados a integrar a Companhia Ituana, que tinha planos de expandir a Estrada de Ferro Santos-Jundiaí de forma que a ferrovia passasse a atender também Itu. Os empresários sorocabanos, contudo, desejavam que os trilhos chegassem à Sorocaba, e, liderados por Maylasky, condicionaram a essa exigência a entrada de seu capital no empreendimento, no que não foram atendidos.

Assim, em fevereiro de 1870 é fundada a Estrada de Ferro Sorocabana, com Maylasky por presidente. A construção da estrada de ferro tem início quatro meses mais tarde. A linha é inaugurada a 10 de Julho de 1875.

O empreendimento, contudo, revelou-se pouco lucrativo. A receita gerada pelo transporte de algodão era insuficiente até mesmo para manter a companhia operando fora do vermelho. Assim, em 1880, Maylasky acaba sendo demitido da EFS e substituído por Francisco de Paula Mayrink.

Sob o comando de Mayrink, muda a mentalidade da Sorocabana. Como visto, a ferrovia foi inicialmente concebida para transportar a produção algodoeira da cidade, mas tal atividade não era o bastante para manter a companhia operando. Era preciso, portanto, uma expansão nos negócios. Tendo em mente que, nessa época, a produção de café no interior do estado de São Paulo já era imensa, Mayrink decide expandir os trilhos da Sorocabana rumo ao interior, de forma a aumentar seu mercado.

Se essa mudança de paradigma não trouxe grandes resultados empresariais – em 1892 funde-se com a Estrada de Ferro Ituana, mas acaba sendo vendida à União em 1904. Em 1905 é comprada pelo estado de São Paulo, em 1907 é arrendada para o truste de Percival Farquhar e em 1919 é retomada pelo governo do estado – mas foi graças a essa nova política de negócios que a estrada de ferro chegou ao interior de SP, inclusive à Ourinhos no ano de 1908.

 

 

II – Novas terras

A cultura do café era fortíssima no estado de São Paulo, sobretudo no norte, próximo a Ribeirão Preto. A cafeicultura depende de uma espécie muito específica de solo para se desenvolver: a chamada terra roxa. A terra roxa é abundante na região de Ribeirão Preto, mas as propriedades que plantavam café eram tantas que, no começo do século XX, passa a haver escassez de terras na região. Assim, aqueles que desejavam entrar para o negócio do café foram obrigados a buscar novas regiões.

A região de Ourinhos, abundante nesse tipo de solo, torna-se, então, destino de inúmeros fazendeiros que desejavam expandir ou lançar-se à cafeicultura.

No ano de 1910, Barbosa Ferraz, proprietário de terras na região de Ribeirão Preto, compra uma enorme gleba de terras entre Ourinhos e Cambará, e planta um milhão de pés de café. Este acontecimento seria decisivo para o futuro tanto da cidade quanto de toda a região, até mesmo de cidades como Londrina. Para garantir o escoamento da produção através da Sorocabana, Barbosa e outros fazendeiros da região associaram-se para a construção de uma estrada de ferro ligando suas terras a Ourinhos. Foi fundada, então, a Estrada de Ferro Noroeste do Paraná, cujo nome posteriormente seria alterado para Companhia Ferroviária São Paulo – Paraná. A construção do trecho entre Ourinhos e Cambará inicia-se em 1923, mas, após um ano de trabalho, as despesas tornam-se pesadas demais, havendo o perigo do naufrágio do empreendimento. É então que Barbosa Ferraz decide buscar novos sócios. É o primeiro passo para a chegada dos ingleses.

 

III – Os ingleses

 

Em 1922, o Presidente da República Arthur Bernardes chamara técnicos ingleses para o estudo da situação econômica e comercial do país. A missão inglesa, chefiada por lorde Montagu, ex-secretário de Estado para as Índias e ex-secretário financeiro do Tesouro da Inglaterra, trouxe Charles Addis, diretor do banco da Inglaterra, Sir Hartley Withers e um personagem que estaria diretamente ligado à história ourinhense: Simon Joseph Fraser, lorde Lovat. Lovat viajava como diretor da Sudan Cotton Plantation Syndicate. Além da participação no trabalho, como assessor para assuntos de agricultura e floretamentos, ele estava interessado em fazer negócios. Sua companhia dedicava-se à plantação de algodão no Sudão, então uma colônia britânica.

Barbosa Ferraz, então, estava com as obras da ferrovia paradas, e buscava investidores que injetassem capital à obra. No dia 15 de Janeiro de 1924, dia seguinte à chegada da missão Montagu a cidade de São Paulo, Barbosa publica n’O Estado de São Paulo um anúncio marcadamente otimista sobre as perspectivas da ferrovia.

Lorde Lovat, encerrados seus compromissos junto à chamada missão Montagu, visita diversas regiões no interior do estado de SP, buscando oportunidades de negócio para sua Sudan Plantation. A convite de Barbosa Ferraz, visita o norte do Paraná. Encantado com a riqueza do solo, Lovat oferece 15 mil contos de réis pelas terras e pés de café de Ferraz, mas a oferta foi recusada: Barbosa desejava terminar a ferrovia e expandir a produção agrícola, e não queria abrir mão de suas terras.

Lovat acabou se interessando pela região. Ainda em 1924, ele e seus sócios fundam em Londres a Brazil Plantations Syndicate Inc. A subsidiária brasileira do empreendimento organiza-se em 1925, sob o nome Companhia de Terras do Norte do Paraná. No comando, João Sampaio, Antônio Moraes Barros e o inglês Arthur Thomas. O grupo adquiriu fazendas na região, tendo em vista o cultivo do algodão, que acabou revelando-se pouco lucrativo. Assim, decidem optar pela colonização e venda de terras, no que foram mais bem sucedidos: o capital da Brazil Plantations subiria de 200 para 750 mil libras esterlinas.

Em 1928, a Companhia Ferroviária São Paulo – Paraná encontrava-se em dificuldades financeiras, e decidiu vender a maioria de suas ações. Estas acabaram sendo compradas pela Companhia de Terras Norte do Paraná, a 30 de Junho de 1928.

Estando no controle de uma companhia ferroviária, os ingleses desbravaram todo o norte do Paraná, tendo Ourinhos como ponto de partida. Em 1930, a ferrovia chega ao Rio Cinza. Foi essa expansão ferroviária que deu origem à cidade de Londrina, batizada em homenagem a cidade de Londres.

 

IV – A Casa dos Ingleses

 

A presença dos ingleses em Ourinhos, graças ao controle britânico da estrada de ferro, foi bastante intensa durante o período que vai até 1944, quando a ferrovia retorna ao controle estatal. Um dos personagens mais marcantes desse período foi o engenheiro Morton.

Morton viveu em Ourinhos de 1929 a 1944. Chegou à cidade para ocupar o cargo de superintendente das obras da estrada de ferro. Foi nesse período que ocorreu a construção das chamadas “casas dos ingleses”. Um documento redigido por Morton em 1986, pouco antes de falecer, conta que “em Ourinhos foram construídas casas para empregados de alta categoria”, o próprio Morton entre eles, evidentemente.


V – O Príncipe de Gales

 


Em 1931, a região de Ourinhos foi visitada pelo príncipe de Gales, Edward Albert David, e por seu irmão Albert Frederick George. Ambos os príncipes viriam a ser coroados reis da Inglaterra: Edward tornaria-se Edward VIII em janeiro de 1936, mas abdicaria do trono em dezembro do mesmo ano, razão pela qual Albert assume o trono, sob o nome real George VI.

A visita dos futuros reis à Ourinhos tem caráter oficial, mas é sabido que os príncipes eram acionistas da Brazil Plantation, de forma que a presença deles na região também tinha um lado de negócios pessoais.

É dito que a presença das altezas reais causou grande burburinho na cidade. Os locais aglomeraram-se na estação de trem a espera dos príncipes, mas o trem chegou atrasado e, apesar da multidão festiva que se encontrava na plataforma, os príncipes não abriram as janelas.

 

Escrito po Franco Furlan
http://francofurlan.wordpress.com/ 

Fontes:

 

http://www.bv.fapesp.br/en/bolsas/131784/the-sorocabana-railway-company-1907-1919/

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Sorocabana

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Estrada_de_Ferro_Santos-Jundia%C3%AD

 

http://en.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Paulo_Railway

 

http://www.uel.br/museu/complementares/cia.html

 

Livro: Ourinhos: Memórias de uma Cidade Paulista, de Jefferson Del Rios